quarta-feira, maio 21, 2014

Confissões e frustrações de uma gestante obesa e diabética

Estar grávida, mesmo num quadro complicado como o meu, é maravilhoso. A cada  semana que  se inicia, notamos e aguardamos as novidades que essa nova fase nos trará. 
Sendo gestante de alto risco, vivo numa gangorra de sentimentos. Vou do céu ao inferno diariamente.
Minhas batalhas, ninguém além de mim, mesmo com todos os que me cercam vivenciando essa realidade ao meu lado,  imaginam o quão difíceis e desafiadoras elas são.
Sei que pago o preço pela falta de amor para comigo. Não me cuidei, não dei a devida atenção a minha saúde, e hoje luto diariamente para que os fardos desse descaso, sejam apenas meus e de ninguém mais.


As dificuldades vão muito além da privação alimentar, a vida do meu bebê e minha saúde, exigem uma disciplina e força de vontade que desafiam minha sanidade.
Não sei se conseguem me entender. Amo estar grávida, me sinto uma mulher completa, realizada e plena, no mais amplo sentido de ser, mas sinto que perco momentos que não posso viver e que me fazem uma falta imensa. 

Na gravidez do meu filho, a 7 anos atrás, eu já era diabética e já tinha bastante sobrepeso. Embora tenha sido bastante difícil, não me lembro de ter sido tão intenso. Não sei se por ser mais jovem ou por ter menos informação, não senti tanto o peso da responsabilidade. Não se enganem, segui tudo a risca, dieta rígida, controle da diabetes, mas somente com alimentação, monitorização contínua da pressão arterial e todo o cuidado que o momento exigiu, mas algo era diferente.

Hoje me pego frustrada por não poder simplesmente perceber minha barriga crescer. Estou com 19 semanas e 4 dias, sei que meu útero já está bem próximo do umbigo, mas simplesmente nada mudou na minha silhueta, e se tivesse mudado, seria motivo de preocupação, pois ganhar peso significativamente agora não é o ideal. Não preciso que ninguém me diga que o mais importante é ter recebido a dádiva de gerar e de poder seguir sem intercorrências graves, sei perfeitamente quais as prioridades e reais relevâncias que me cercam, mas hoje me dou o direito de me sentir frustrada por não poder viver minha gravidez com a leveza que eu gostaria.

Que grávida não quer ficar horas na frente do espelho observando como seu corpo mudou, tirar fotos semanais e perceber o quanto a barriga cresceu, ter a liberdade de exagerar numa refeição onde o desejo da gravidez falou mais alto, de comer a compota doce da tia do interior, de ver a barriga ondulando , mexendo e sacudindo cada vez que o bebê resolve dar o ar da graça. Que grávida não gostaria de simplesmente viver sua gestação da forma mais natural e saudável possível ?

Está se apegando a detalhes irrelevantes Tati, o importante é que você está grávida, tantas buscam e ainda não conseguiram, tem que agradecer pela saúde do seu bebê que está bem , o resto é resto. Bem, as vezes de fato me sinto assim , fútil por estar chateada com coisas menos importantes, mas é uma miscelânea de fatos e sentimentos, aliados a explosão hormonal que te um dia te joga pra cima , tão alto que o céu é o limite, e em outros momentos, me sinto tão menos, tão fraca e covarde que é impossível não me sentir deprimida.

Muitas vezes me sinto numa novela mexicana, valorizando uma situação que para tantas outras deve ser tirada de letra. Tem dias em que eu tiro, na verdade a maioria deles, não sou uma pessoa inclinada a dramas. Levanto da cama e sem pensar muito, simplesmente faço o que precisa ser feito. Não ligo para as pontas dos dedos que estão totalmente doloridas, nem perco muito tempo procurando um dedo menos machucado, simplesmente furo e pronto, tá feito. 

Em seguida abro uma nova seringa, aspiro a quantidade de insulina necessária, faço a aplicação sem olhar para os roxos e doloridos do  local escolhido, preparo minha xícara de café com leite e minha única fatia de pão integral sem adição de açúcar com uma colher bem rasa de margarina e me sinto satisfeita por ter começado bem dia. Não dou atenção a fome que insiste em fazer o estômago roncar, sigo em frente e pronto. 
Porém ,tem dias que isso tudo me machuca de uma forma tão intensa, que levo horas para me livrar do sentimento de "poderia ser tudo tão diferente se eu tivesse me amado mais". Mas o que me machuca de verdade, o que me faz levantar da cama cheia de preocupação, é a saúde do pequeno. 

Santa Alessandra que um dia achou que devia me presentear com um angels sounds.  O verdadeiro bálsamo para minhas dores e minhas feridas, físicas e emocionais, é o tum tum do coração que bate dentro de mim, e não tem um dia sequer que não passe no mínimo 10 minutos ouvindo seus movimentos e me aquecendo nas batidas do seu coração.

Hoje tive consulta, vi o pequeno chupando o dedo e mexendo as mãozinhas. Ganhei elogios da equipe médica que me acompanha, me senti leve e vi que meu esforço além de refletir na saúde do meu bebê está aparecendo aos olhos de quem me acompanha. Percebi que nem todas são como eu, a grande maioria não tem muita disciplina , come e faz o que tem vontade, deixa sua condição de grávida falar mais alto e aposta na sorte. Uma delas hoje me disse, "nove meses é muito tempo para eu me privar das coisas que gosto". Nove meses para mim é simplesmente nada perto da saúde do meu filho. Não dá pra contar com a sorte, atirar no escuro e torcer para que tudo dê certo, é preciso fazer a sua parte e a minha eu tenho feito muito bem. 
Já quem decidiu pagar o preço por não se privar das gostosuras da vida, teve sua primeira parcela cobrada hoje, a moça saiu de ambulância para uma internação de emergência, a glicemia dela estava em assustadores 415 mg/dl quando o ideal para um pós café é até 130 mg/dl.


Só sei que minha rotina não é fácil, nem de longe é a que eu gostaria de estar vivendo grávida, mas é a necessária para minha saúde e o mais importante, para a saúde da vida que eu carrego. Tive alguns momentos mais delicados que quero dividir com vocês mais para frente. Por hoje, só quero agradecer por estarem comigo, me ouvirem e me acompanharem. Se chegou até aqui, teve paciência e se importou com minhas dores e dificuldades, se preocupou em saber o que tem me afligido, e isso tudo vale demais para mim.

Só quero em algum momento poder me preocupar com a cor da linha do bico das fraldas, com a saída da maternidade, com o modelo do berço ou do carrinho, sem sentir que estou dando mais importância a coisas menos importantes.

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6 comentários:

  1. SENSACIONAL, Tatiana.Fiquei arrepiada.

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  2. Tati, sei que acima de tudo está feliz com a gestação e está fazendo de tudo para correr tudo bem. Entendo o que está sentindo e você tem todo direito de alguns momentos se questionar o pq esqueceu da sua saúde. Um de seus primeiros vídeos você disse que uma enfermeira te falou que o bebê veio para te salvar. Tenho certeza que depois que dar a luz você pensará e agirá diferente. Você tem sorte de ser disciplinada e estar fazendo tudo que é necessário. Fique bem! Deus está sempre com a gente. 9 meses passa tão rápido que você nem vai se lembrar o que está passando quando ver o seu bebê. Beijo Grande!

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  3. Nossa, Tati! Parabéns pela coragem de se expor, de dividir conosco as suas angústias, os seus medos e inseguranças. Não acho que deva existir um julgamento para vc ou para qualquer outra pessoa... Acho, sim, que todas nós devamos nos dar um tempo de tristeza, de choro, de misto de emoções para que, em seguida, possamos seguir adiante certas de que tudo é um grande mistério e que figura como aprendizado.
    Sou tentante desde agosto do ano passado. No meu 1o ciclo engravidei. Nossa, fiquei radiante! Conseguir engravidar na 1a tentativa é realmente uma dádiva!!! Mas, como vc pode já imaginar, sofri a tão dolorosa perda. Com 5 semanas, meu anjinho voltou ao céu. Foi uma dor imensa. Da alegria extrema à tristeza profunda. Meu marido foi excepcional, companheiro. Minha GO, magnífica. Todos com palavras de consolo e justificativas. Me dei, sim, um período de tristeza, de "luto". Mas o fato é que aprendi que não estamos no controle. De nada. Retornei às tentativas agora em março... Não estou conseguindo engravidar e sei que o maior inimigo é a nossa mente. A minha luta mensal com a minha mente às vezes me deixa angustiada. Mas, em seguida, trato de não dar continuidade a isso, pois sei que o que é nosso, chega até nós no momento certo, pois não estamos no controle. Então, querida, respeito vc, o seu desabafo, a sua angústia. Calorosamente, transmito a vc um forte abraço e votos de que toda essa fase passe e que vc absorva tudo de bom e trabalhe, da melhor forma que encontrar, os sentimentos e sensações negativas, pois estas servirão apenas para tumultuar o seu discernimento, atrapalhando a dádiva de ser mãe.
    Aprendi com vc: "Pés no chão e esperança no coração!"
    Um beijo grande e um forte abraço!!!!

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  4. Apesar de tudo q vc acha q é menos importante, pra vc é importante, saiba que és uma mulher vitoriosa por tudo, por ajudar tantas pessoas quanto vc pode fazendo esse site lindo e recheado de imformações que fazem de pessoas como eu ansiosas e esperançosas que nosso dia vai chegar com fé em Deus sempre! Você merece tdo de bom na sua familia e com essa nova gravidez que Deus a abençoe em todos os aspectos!

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  5. Tati,Todas nos só temos a agradecer por vc estar aqui... dedicando o seu tempo para nos ajudar com tantas dúvidas e angustias... entendo e compreendo o que vc está passando e deus vai te ajudar a superar isso tudo e qdo seu bebezinho nascer ele te confortara mais ainda... vocêé uma guerreira!!! parabens por essa luta diaria vc já venceu a guerra... estamos com você!!!
    bjs

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  6. Estou emocionada ao ler seu depoimento, amanhã (23/05) completo 19 semanas de gestação e tenho brigado um pouco com a balança devido a um problema de coluna, nada parecido com sua situação, mas que me incomoda, principalmente, pela fome que ando sentindo. Só que, ao ler seu desabafo, percebo o quão pequeno é uma dieta alimentar diante da grandeza de se carregar uma vida e poder zelar por ela. Olha eu agradeço por dividir esse seu pedacinho de vida com a gente e com certeza estarei orando pela sua gestação para que Deus a abençoe sempre!!! Bjos!!!

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